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O nosso não é o maior

Lobo frontal humano é proporcionalmente tão grande quanto o dos grandes primatas

Darwin deixou bem claro para quem quisesse ouvir -- e para quem não quisesse também -- que temos um ancestral em comum com os macacos. Segundo a genética, até 98% dos nossos genes, dependendo de quem faz a estimativa, são idênticos aos deles. Eles também se comunicam, vivem em grupos, inventam ferramentas, brigam por poder e matam seus semelhantes. Até o valorizado polegar opositor eles têm. O que nos torna humanos, então, além de muitos pêlos a menos?

"Um grande lobo frontal do cérebro", diz a resposta tradicional. Faz sentido: o lobo frontal, a porção de córtex situada à frente do maior sulco do cérebro, é responsável por funções que gostamos de pensar que são, se não exclusividade nossa, ao menos nossa área de excelência. Ali operam a memória de trabalho, os mecanismos de tomada de decisões racionais e emocionais, o planejamento de ações e as funções cognitivas que tantos gostam de chamar de inteligência.

O dogma do meu-lobo-frontal-é-maior começou com medições feitas no começo do século 20, que estimavam que o lobo frontal ocupa 'enormes' 36% da superfície do córtex no ser humano, mas apenas 20 a 30% em outros primatas como o gibão e o chimpanzé. Em épocas em que se acreditava que maior era de fato melhor, a história naturalmente colou: era uma excelente explicação para nossas habilidades 'superiores'. Daí pra frente foi só uma questão de tempo: como qualquer estória exaustivamente difundida passa a ser considerada verdade, hoje em dia livros de divulgação científica, jornais e revistas afirmam sem grandes preocupações que o grande lobo frontal do córtex é o que nos diferencia de outros primatas.

E a estória foi ficando por isso mesmo -- até que alguém teve a ousadia de questionar os resultados antigos. Esse 'alguém' foram três antropólogos da Universidade da Califórnia em San Diego e a neurocientista Hanna Damasio, da Universidade de Iowa (ambas nos EUA). Uma vez que os estudos anteriores haviam usado métodos precários de estimativa da superfície do córtex aplicados a um número muito reduzido de animais, Hanna e seus colaboradores decidiram investir numa verificação com métodos modernos e mais diretos.

Usando a ressonância magnética para cortar virtualmente o cérebro todo em fatias de menos de dois milímetros, a equipe pôde calcular o volume do córtex frontal de 10 voluntários humanos e 24 'involuntários' primatas, de macacos résus a gorilas, e resolveu assim elegantemente o problema de estudar espécies ameaçadas de extinção. (Sim, isso quer dizer que os animais entraram na máquina de ressonância -- anestesiados, obviamente!).

O resultado? Em números absolutos, o ser humano tem de fato o maior córtex frontal, com mais ou menos uns 300 mililitros de volume. Grandes primatas ficam para trás, com uns 50 ml no chimpanzé, até um máximo de uns 110 ml no orangotango.

Isso, no entanto, era apenas de se esperar. O cérebro humano é maior que o dos outros grandes primatas, e cérebros maiores naturalmente deveriam ter um lobo frontal maior, em volume absoluto. O que diz a noção geralmente aceita é que o córtex do lobo frontal seria relativamente aumentado no ser humano, ou 'mais desenvolvido', como dizem por aí, em relação ao resto do cérebro.

Mas esse não é o caso. Segundo o trabalho do grupo, publicado em março na revista Nature Neuroscience, o córtex frontal humano tem apenas o tamanho esperado para um cérebro primata 'ampliado' pela natureza para chegar ao tamanho do nosso -- e nada de especialmente desenvolvido. Em relação ao total do córtex cerebral, o volume proporcional do córtex frontal ficou em torno de 38% nos dez voluntários humanos, variando para mais ou para menos, mas sempre dentro da mesma faixa que o córtex frontal dos grandes primatas analisados: seis chimpanzés (36%), três bonobos (35%), dois gorilas (36%) e quatro orangotangos (38%). Ficam para trás apenas os pequenos primatas, com uns 30% de córtex frontal em relação ao restante do cérebro.

Por que os novos resultados são tão diferentes de anteriores, que apontavam um córtex frontal humano até 200% maior que o esperado para um cérebro do seu tamanho? Para os autores, a diferença principal está no número de animais estudados. Dada a variação de tamanhos e proporções, pegando-se apenas um exemplar de cada espécie, como faziam os estudos anteriores, seria possível ter a 'sorte' de estudar justamente o caso extremo de cada espécie e concluir que o lobo frontal humano é de fato relativamente maior. Além do mais, os grandes primatas -- tão especiais quanto nós em matéria de tamanho relativo do lobo frontal -- não haviam sido incluídos regularmente nos outros estudos.

Resumindo: você pode até continuar a acreditar que seu lobo frontal é especial comparado ao de um macaco résus, por ser aumentado em relação ao resto do cérebro. Mas, por esse critério, o gorila também pode ficar contente. O que torna você diferente? Não deve ser o tamanho absoluto do lobo frontal -- a menos que você considere que elefantes, golfinhos e baleias -- campeões em termos de tamanho do cérebro -- são mais 'inteligentes' que você. Talvez a diferença esteja numa organização interna mais elaborada do lobo frontal, ou na densidade de conexões entre os seus neurônios, que segundo os autores é relativamente maior no ser humano. Mas o seu lobo frontal, leitor, não é especialmente grande.

Sinto muito se isso estragar o seu dia. Se serve de consolo, é claro que você ainda pode questionar quão parecidos com você eram os humanos escolhidos para representar sua espécie nessa importante missão: dez pesquisadores do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa...

Suzana Herculano-Houzel
O Cérebro Nosso de Cada Dia
11/10/02

Fonte:
Fonte: Semendeferi K, Lu A, Schenker N, Damasio H (2002). Humans and great apes share a large frontal cortex. Nature Neuroscience 5, 272-276.

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