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 HISTÓRICO

Ciência fora do casulo
Conheça a história da criação da revista Ciência Hoje

Esperava-se com ansiedade o nascimento do tão desejado primogênito. Alguns viam com ceticismo a possibilidade de ele vingar e se desenvolver. Outros aplaudiam com entusiasmo o novo rebento e apostavam, otimistas, em um futuro promissor. A gestação levou seis anos e muita discussão. Alguns meses antes haviam sido definidos o local e a data para sua chegada: Campinas, 7 de julho de 1982, durante a 34a reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Pesquisadores, professores e estudantes de todo o país estavam ali, prontos para recebê-lo. Em um clima que misturava surpresa, reserva, admiração e euforia, era lançado o número 1 de Ciência Hoje  - a primeira revista de divulgação científica do país.

O objetivo de seus editores estava explícito no primeiro editorial: estabelecer um canal de comunicação entre a comunidade científica e o grande público; e promover o debate político em torno de questões como cidadania, educação e participação universitária, possibilitando, assim, a democratização da ciência. Para isso, era preciso superar um obstáculo que seria decisivo para impulsionar e sustentar o projeto original: substituir a linguagem hermética dos artigos científicos, carregada de jargões e fórmulas, por textos de maior simplicidade e clareza, sem perda do rigor científico. Detalhe: o Brasil não tinha tradição nessa área.

Nunca a comunidade científica em bloco havia se proposto tal desafio: falar sobre ciência para a população comum. Existiam, é claro, iniciativas isoladas de  popularização da ciência, como programas de rádio, entrevistas na televisão, palestras a preços simbólicos, boletins informativos de sociedades científicas. Todos esses foram esforços preciosos, que em muito contribuíram para estimular o debate e preparar o terreno para um projeto mais amadurecido de divulgação científica. Mas foi, com certeza, Ciência Hoje que conseguiu consolidar esse compromisso de levar à sociedade informação de qualidade sobre a ciência e a tecnologia desenvolvidas no país.

A recepção foi das melhores. Ainda durante a reunião de Campinas foram obtidas centenas de assinaturas. Eram pessoas que, mesmo sem a garantia de que a jovem equipe de pesquisadores-diretores pudesse levar avante o projeto, queriam premiar a ousadia de Ciência Hoje, oferecendo sua confiança. A repercussão nas bancas repetiu o êxito alcançado com os novos assinantes: em semanas já havia se esgotado a primeira edição de 15 mil exemplares e foi preciso partir para uma segunda tiragem de 10 mil.

Apesar do entusiasmo visível, o lançamento não ocorreu sem polêmica. Tanto por parte dos temas tratados na revista - como a tragédia ecológica no complexo industrial de Cubatão -, quanto por parte da própria diretoria da SBPC, que se manteve austera, observando à distância a evolução dos acontecimentos.

O país, sob o governo do general João Baptista Figueiredo, vivia momentos tensos. Atos terroristas tentavam comprometer a continuidade do processo de abertura política iniciada no governo anterior, do também general Ernesto Geisel. As eleições diretas ainda demorariam a chegar - só aconteceriam sete anos depois.

A esse panorama nada favorável somavam-se problemas de outra ordem. Os editores só tinham verba para mais um número. Grande parte de seus esforços era dirigido à captação de recursos. E ainda existiam questões editoriais preocupantes: teria a comunidade científica condições de manter uma produção regular de artigos de divulgação? Seria possível repetir o sucesso do primeiro número?

O tempo mostrou que sim. Mas, na época, ninguém imaginava que, no contexto de dificuldades econômicas e incertezas políticas em que foi lançada, Ciência Hoje fosse atingir a maturidade e dar à luz uma prole extensa: um informativo semanal (hoje Jornal da Ciência), uma revista dedicada ao público infantil (Ciência Hoje das Crianças), um site com noticiário científico atualizado diariamente (Ciência Hoje On-line), uma coleção de livros paradidáticos para o ensino médio (Ciência Hoje na Escola), além de um CD-Rom para crianças (A máquina maluca) e volumes especiais (Amazônia e Eco-Brasil).

Os frutos vão além dessa extensa série de produtos. Grande parte da comunidade científica aprendeu com Ciência Hoje a escrever para um leitor não especializado, e outros tantos profissionais de comunicação conheceram uma nova forma de contar histórias sobre ciência - com qualidade e precisão. Nestes 20 anos, mais de 2 mil cientistas de todo o Brasil (6% da região Norte, 4% do Nordeste, 6% do Sul, 3% do Centro-Oeste e 68% do Sudeste, refletindo em parte a distribuição da pesquisa científica no país), além de dezenas de outros trabalhando no exterior (13%), escreveram artigos para Ciência Hoje. Cerca de 850 pesquisadores foram consultados para avaliar os textos de seus pares. Mais de 70 jornalistas passaram pela nossa redação ou colaboraram com a revista. Ciência Hoje tornou-se, portanto, um verdadeiro laboratório de idéias e realizações, um marco na história da divulgação científica do país.

Hoje, mais de 200 números depois, o compromisso de levar à sociedade as pesquisas científicas e tecnológicas realizadas por brasileiros se mantém vivo. Renova-se também, a cada edição, a promessa de estimular o senso crítico e aproximar a universidade da população, permitindo, assim, que a comunidade científica saia de seu 'casulo' e transforme o saber que detém em domínio público.

Certo de que ainda há muito por fazer, o Instituto Ciência Hoje continua imaginando formas de ampliar a socialização do conhecimento. Mas esses são planos para outra oportunidade. Esperamos que para breve.

Ciência Hoje 184, julho 2002
Alicia Ivanissevich
Ciência Hoje/RJ


 

 
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