"Só uma coisa na vida desejo [...] se eu tivera uma mãozinha de um rapaz
tapuia de pouca idade tenrinha, e lhe chupara aqueles ossinhos..."
Declaração de uma índia convertida, doente,
relatada pelo Padre Simão de Vasconcelos
 |
|
Preso pela cintura, prisioneiro recebe golpe que faz seu cérebro saltar. As mulheres arrancam a pele e despedaçam o corpo (xilogravuras da primeira edição da obra de Hans Staden, 1557) | | |
Um dos traços da cultura dos índios Tupi-guarani que mais dificultou a ação dos jesuítas encarregados de sua catequese foi a antropofagia. O costume de se alimentar da carne dos guerreiros inimigos para se apropriar de seus atributos foi uma importante frente da resistência indígena, que só sucumbiu ao cristianismo com a destribalização e as epidemias no século 17. Poligamia, bebedeiras coletivas que permitiam transgressões sem punição e nomadismo também eram obstáculos à nova religião.
O conflito de crenças que opôs índios e jesuítas é o foco do livro Os vivos e os mortos na América portuguesa - da antropofagia à água do batismo, de Glória Kok. No limiar entre história e antropologia, a autora se baseia no relato de cronistas e missionários e fontes contemporâneas para retraçar a difícil aculturação de um povo.
Quando os indígenas foram admitidos como homens racionais em 1537 pelo papa, foi preciso catequizá-los. O genocídio dá lugar então à conversão com pregações periódicas, que não surte efeito devido à inconstância dos indígenas, apegados aos antigos costumes.
A Coroa coibia as guerras entre tribos, que vingavam os antepassados mortos em confrontos anteriores e imprimiam identidade a cada uma. As aldeias resistentes eram dizimadas e os rebeldes castigados publicamente. No século 16, os jesuítas e o governo-geral promoveram a destribalização dos índios ao criar aldeamentos. Ali, eles conviviam com colonos em condições tão precárias que alguns se ofereciam como escravos.