Parte da história da cultura brasileira acaba de ser recontada no livro Revistas em Revista, que pretende resgatar aspectos do imaginário paulistano na transição dos séculos 19 e 20 a partir de revistas como suporte documental. Foram analisadas nove categorias desses periódicos que circularam na cidade entre 1890 e 1922. A obra é resultado da tese de doutorado apresentada ao Departamento de História da Universidade de São Paulo pela pesquisadora Ana Luiza Martins, e ganhou o prêmio de melhor livro de história de 2001 concedido pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
O trabalho se divide em duas partes. Na primeira -- Texto e Contexto -- a pesquisadora tenta reconstituir o panorama histórico no qual surgiu a indústria da revista ilustrada brasileira. Ela afirma que o sucesso de produção e venda desses periódicos foi sintoma das novas relações sociais e econômicas que se definiram em fins do século 19, no caminho entre tradição e modernidade. "A revista era instrumento eficaz de propagação de valores, visto seu caráter de impresso do momento: condensado, ligeiro e de fácil consumo", explica.
Apesar de iniciar o livro com uma apresentação geral da conjuntura do país, Ana Luiza restringe sua tese à análise do periódico revista na cidade de São Paulo. "Esse recorte se apresentou viável em face do potencial informativo sugerido pelo corpus documental, ainda carente de reflexões."
Na parte dois, Folheando as Revistas, a autora avalia o conteúdo das publicações escolhidas, dimensiona suas temáticas e procura apreender os agentes sociais envolvidos no processo de produção. Com isso, tenta definir a imagem que se vendeu da capital paulista. "O folhear revelou a cidade como um palco, abrindo-se para viver seu projeto de Ordem e Progresso", descreve. "Nele, o espaço público foi idealizado."
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Capas da Revista Moderna (1897), de seu encarte A Ilustre Casa de Ramires (folhetim de Eça de Queiroz) e da revista A Vida Moderna (1914) | | |
Ao longo do trabalho, Ana Luiza afirma que é importante colocar em discussão a credibilidade dos periódicos como representação dos valores de uma época. Por isso, todo o texto é atravessado pela pergunta "seriam as revistas uma cilada documental?". Segundo a historiadora, a imprensa deve ser estudada com muita cautela pois, como constitui instrumento de relações capitalistas, pode condicionar a realidade. "A pertinência desse gênero como testemunho é válida se considerarmos as condições de sua produção, de sua negociação, de seu mecenato propiciador, das revoluções técnicas a que se assistiu e, sobretudo, da natureza de capitais nele envolvidos", diz.
Embora afirme que ainda existem graves lacunas nos estudos sobre revistas brasileiras (ao longo do século 20, pesquisadores optaram pela análise dos periódicos diários), Ana Luiza decide finalizar sua tese no ano de 1922. Não por causa da Semana de Arte Moderna, "mas pela conjuntura diversa que passou a presidir a produção do impresso nos anos imediatamente posteriores àquele evento", explica. De qualquer forma, futuros estudiosos da cultura brasileira ganharam, com Revistas em Revista, uma nova fonte de referência bibliográfica, histórica e iconográfica.