Animais clonados aparentemente normais podem ter sérias anomalias genéticas que não se manifestam como características externas. A descoberta, de pesquisadores da Universidade do Havaí (EUA), confirma as suspeitas de que a clonagem, além de ineficiente, pode ser insegura. As conclusões do estudo foram apresentadas por Rudolf Jaenisch e Ryuzo Yanagimachi em 6 de julho na revista Science.
Na pesquisa, a clonagem foi feita a partir do implante de núcleos de células embrionárias em ovócitos que tinham o núcleo extirpado. Os pesquisadores acreditavam que as células embrionárias seriam ideais para a clonagem, já que ainda não têm função definida. O mesmo não acontece, por exemplo, com uma célula mamária (que deu origem à ovelha Dolly em 1997) -- por já ter finalidade específica, a dificuldade em reprogramá-la seria muito maior. Em tese, o novo núcleo reiniciaria o processo de crescimento, que desenvolveria um indivíduo geneticamente idêntico ao doador da célula embrionária.
Com as células embrionárias, os cientistas desenvolveram clones de camundongos e monitoraram a atividade de genes 'impressos' (que são regulados por meio de um processo químico chamado metilação). Eles analisaram (a partir do RNA) se os produtos desses genes eram fielmente reproduzidos nos clones e procuraram definir se os problemas já verificados na clonagem eram causados por aberrações nas células doadoras ou pelo processo de clonagem em si.
A conclusão surpreendeu os cientistas: boa parte dos problemas era causada por defeitos no desenvolvimento das células embrionárias, que se mostraram extremamente instáveis em cultura. Quando se dividem em cultura, perdem parte das 'etiquetas' (que têm como função fazer o gene 'impresso' ativo ou não). Apesar dessa instabilidade, vários embriões sobreviveram até a vida adulta, o que mostrou o quanto o desenvolvimento dos mamíferos é tolerante com relação a alterações na regulação gênica.
"Esse estudo é muito importante, especialmente no momento que o médico italiano Severino Antinori afirma que fará clones humanos" diz o geneticista Francisco Salzano, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Segundo ele, o estudo prova que "mesmo que um clone seja morfologicamente normal, ele pode ter problemas de regulação gênica que causam doenças, envelhecimento precoce e outras alterações metabólicas".
Tiago Lethbridge
Ciência Hoje on-line
07/08/01