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 NOTÍCIAS :: BIOLOGIA

Descoberta a heparina brasileira 

Compostos extraídos de invertebrados marinhos têm ação anticoagulante

Compostos com a mesma atividade da heparina, principal anticoagulante conhecido, foram encontrados em invertebrados marinhos. Conhecidos como heparina brasileira, os compostos são extraídos da ascídia, do pepino-do-mar e do coquille de Saint Jacques. À frente da pesquisa, que já dura 15 anos, está o bioquímico Mauro Pavão, do Laboratório de Tecido Conjuntivo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com vasta atuação, a heparina é utilizada na prevenção da trombose, em pacientes que fazem hemodiálise e em cirurgias nas quais o sangue circula fora do corpo, entre outros.

Coquilles de Saint Jacques (esq.) e pepino-do-mar, invertebrados marinhos em que foram identificados compostos com ação anticoagulante

Os cientistas identificaram as estruturas químicas sintetizadas pelos invertebrados marinhos e verificaram que alguns desses compostos apresentam estrutura semelhante à da heparina. Os testes com esses compostos foram feitos in vitro, a partir da indução experimental da trombose em animais após a injeção dos compostos dos invertebrados.

Os resultados mostraram que esses compostos são capazes de prevenir a formação de trombos nas veias e artérias e de reduzir o sangramento -- pior efeito colateral provocado pela heparina obtida do pulmão e do intestino de bovinos e suínos. Além disso, eles não são tóxicos, não se acumulam nos tecidos, possuem um efeito anticoagulante mais prolongado e, por sua origem, os riscos de contaminação viral são praticamente inexistentes.

Segundo Pavão, a heparina também é um potente anti-metastático (combate a migração de células cancerosas para outros órgãos). Porém, como a dose de heparina necessária para o efeito anti-metastático é elevada, o perigo de hemorragia é alto. Assim, o composto extraído de animais invertebrados marinhos poderá ser utilizado em pacientes com câncer, já que seu efeito de sangramento é muito reduzido.

Diferentes variedades de ascídias (na Styela plicata, foram identificados anticoagulantes). Já foram isolados também nesses invertebrados compostos que impedem a reprodução de células cancerosas


Recentemente, a equipe de Pavão realizou uma parceria com o Instituto de Ecodesenvolvimento da Baía de Ilha Grande (IED-BIG), uma referência em maricultura do estado do Rio de Janeiro. Hoje, o instituto desenvolve metodologia para o cultivo de ostras, mexilhões e coquilles de Saint Jacques, mas o objetivo é cultivar também os outros invertebrados que contêm esse composto, como as ascídias e o pepino do mar.

A parceria com o IED-BIG também tem um aspecto social: a idéia é oferecer cursos de cultivo artesanal para pescadores do estado do Rio de Janeiro, para que possam vender esses animais para indústrias. A fim de ratificar essa parceria, um curso sobre as recentes pesquisas desenvolvidas na área será promovido em setembro no Rio.

A próxima etapa da pesquisa é partir para os testes clínicos e buscar financiamento das indústrias farmacêuticas para a produção e comercialização dos compostos. De acordo com Pavão, a heparina movimenta por ano nos EUA US$ 2 bilhões. "Além das vantagens dessas substâncias, aqui no Brasil a comercialização desse composto pode trazer lucros para a economia brasileira".

Curso Cobimar (Compostos Bioativos de Invertebrados Marinhos)Data: 15 e 16 de setembro de 2001
Local: Instituto de Ecodesenvolvimento da Baía de Ilha Grande (IED-BIG)
Inscrições: Fundação Educacional Charles Darwin (UFRJ), até 13/09. Tel: (21) 2561-2936 (falar com Raquel)
Custo: R$250, 00 (inclui transporte, hospedagem, alimentação, passeio de barco a uma fazenda marinha e certificado da UFRJ).

Andrea Guedes
Ciência Hoje on-line
10/09/01

 

 

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