Descoberta ajuda a entender tradução do som em sinal elétrico
Cientistas explicam em detalhes comunicação entre nervo e célula do ouvido interno
Detalhes recém-descobertos sobre o funcionamento do ouvido devem ajudar os médicos a melhorar o tratamento de deficiências auditivas. Pesquisadores do Centro para Audição e Equilíbrio do Hospital Johns Hopkins (EUA) identificaram os mecanismos básicos utilizados por células especializadas do ouvido interno para transformar o som em impulsos elétricos compreensíveis pelo cérebro. A descoberta pode ajudar no planejamento de aparelhos auditivos mais precisos e de maior alcance.
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Célula ciliada no ouvido interno ligada a fibras nervosas. Acima, uma fibra de vidro usada no experimento para captar impulsos elétricos (arte: Heike Blum) | |
Segundo o professor de otorrinolaringologia Paul Fuchs, um dos autores da descoberta, há muito já se sabia que, quando o ouvido interno detecta uma onda sonora, uma série de substâncias químicas é liberada. Elas estimulam o nervo adjacente a enviar ao cérebro um impulso elétrico que contém as características do som. As cócleas -- estruturas enroladas em forma de mola situadas no fundo do ouvido -- são o local onde o som é 'traduzido' em eletricidade. Nelas estão localizadas as chamadas células ciliadas, responsáveis pela detecção do som e pela conseqüente emissão de substâncias químicas.
No entanto, explicações mais detalhadas sobre como as células ciliadas se comunicam com os nervos só foram descobertas recentemente e publicadas na edição de fevereiro da revista Nature Neuroscience. Desde 2000, pesquisadores do hospital americano têm estudado células ciliadas de ratos. Eles constataram uma peculiaridade no seu funcionamento: diferentemente do que ocorre com a maioria das células do cérebro, essas estruturas liberam, de maneira constante, grande quantidade de mensageiros químicos para estimularem os nervos.
Segundo Paul Fuchs, os nervos conectados a outras células normalmente precisam coletar os mensageiros químicos por um tempo antes de enviar um sinal elétrico para o cérebro. Depois de enviado o sinal, os nervos voltam a 'descansar'. No caso das células ciliadas, no entanto, há um bombardeio contínuo de substâncias químicas.
"A sinapse dessas células é muito eficiente. A grande emissão de mensageiros químicos pode funcionar como um dispositivo antifalhas, afinal, nós ouvimos constantemente e a audição exige uma sinalização clara", disse Paul Fuchs à CH On-line. "Com um melhor entendimento desses mecanismos básicos, seremos capazes de melhorar as técnicas utilizadas em implantes de cóclea (eletrodos usados para estimular os nervos auditivos)". Esses aparelhos são projetados para substituir a função de detecção das células ciliadas. "Será possível também entender melhor as patologias que levam a deficiências auditivas", acrescentou.
Marina Ramalho
Ciência Hoje on-line
20/05/02