SOMENTE NO ACERVO
DA REVISTA CH
 
   
   
   
   
   
   
   
 

A homeotermia -- ou capacidade de regular sua temperatura corporal -- teria permitido que os pterossauros fossem intensamente ativos, já que não precisariam esperar seu corpo aquecer antes de voar. Kellner acredita que os vasos sangüíneos localizados na crista do T. sethi serviam para dissipar o excesso de calor do seu corpo para o meio ambiente.

 

 NOTÍCIAS :: ARQUEOLOGIA E PALEONTOLOGIA

Brasileiros descrevem nova espécie de pterossauro na Science
Estudo aponta características e hábitos antes desconhecidos de répteis alados extintos


Um estudo de paleontólogos brasileiros ganhou destaque na edição de 19 de julho da revista americana Science: a descrição do crânio de uma nova espécie de pterossauro revela características e hábitos antes desconhecidos desses répteis alados extintos. O artigo -- assinado por Alexander Kellner e Diógenes de Almeida Campos, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Museu de Ciências da Terra, respectivamente -- apresenta o fóssil de um Thalassodromeus sethi (como foi batizada a espécie) coletado em 1983 na Bacia do Araripe, no Ceará.

O fóssil do T. sethi indica que ele voava rente à água, com o bico aberto e com a parte inferior submersa até capturar um peixe (arte: Maurillio Oliveira)


Pterossauros são répteis voadores que coloriram os céus do planeta há mais de 200 milhões de anos, no período Cretáceo da era Mesozóica. Contemporâneos dos dinossauros, eles foram os primeiros vertebrados adaptados para o vôo ativo. Os paleontólogos ainda não sabem definir onde os pterossauros se encaixariam na cadeia evolutiva dos répteis. Como esses répteis não deixaram descendentes, seu estudo é inteiramente feito a partir da análise de fósseis, o que representa grande dificuldade para os especialistas.

Vista lateral do crânio do T. sethi. (à dir., detalhe da crista). Fósseis de pterossauro são em geral encontrados em estado ruim de preservação, pois seus ossos eram ocos para facilitar o vôo, e por isso se despedaçam mais facilmente (fotos: Science)


O Thalassodromeus ('corredor dos mares' em grego) sethi (alusão a um deus egípcio) pertence à família Tapejaridae, cujas espécies só são encontradas no Brasil e no Marrocos. Esse animal viveu há cerca de 110 milhões de anos, quando os continentes eram bem próximos uns dos outros e a Bacia do Araripe era uma imensa laguna rica em insetos, peixes e répteis. Os pesquisadores estimam que o T. serthi tivesse 4,5 metros de envergadura.

O fóssil analisado é composto por mandíbula, crânio e crista. A equipe de Kellner identificou duas particularidades no T. sethi. Uma delas é a grande crista óssea (menor apenas que a da espécie Tapejara imperator), que contém impressões de vasos sangüíneos. Esses vasos, nunca observados em cristas de outras espécies, sugerem que elas eram intensamente irrigadas por sangue, o que reforça a hipótese de os pterossauros serem homeotérmicos. A crista provavelmente teria função aerodinâmica e serviria para distinguir o réptil de outras espécies.

O bico em forma de lâmina do T. sethi (esq.) é semelhante ao do talha-mar, ave do gênero Rynchops existente atualmente (dir.) (imagem: Science)

Outra particularidade é o bico em forma de lâmina, semelhante ao de uma ave existente atualmente. Por analogia, os especialistas sugerem que o pterossauro tivesse uma estratégia semelhante de busca por alimento: supõe-se que o T. sethi voasse bem rente à água, com o bico aberto e com a parte inferior submersa até que um peixe fosse capturado. "O estudo mostra que os pterossauros eram especializados nas mais diversas estratégias de alimentação", disse Kellner à CH on-line.

Segundo ele, cerca de 50% das espécies conhecidas de pterossauros foram encontradas em apenas quatro depósitos no mundo. Um deles é a Bacia de Araripe. "Espero que a publicação do artigo na Science dê visibilidade nacional e internacional à paleontologia brasileira e beneficie também outros grupos de estudo do país." O fóssil está em exposição no Museu Nacional junto com uma réplica do esqueleto do T. sethi e uma reconstituição da cabeça. A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro.

Para saber mais:
Em dezembro de 2001, Alexander Kellner assinou o artigo de capa
de CH 178, sobre pterossauros.

Marina Ramalho
Ciência Hoje on-line
18/07/02

 

 
  INÍCIO O INSTITUTO CH ON-LINE REVISTA CH CH DAS CRIANÇAS APOIO À EDUCAÇÃO CONTATO