Bichos
Melhores amigos da ciência
Cães farejadores ajudam cientistas a saber mais sobre animais ameaçados de extinção


É ainda madrugada quando Mason, Ally, Marvin e Gator saem para o trabalho. Apesar de terem pela frente de cinco a sete horas de labuta, os quatro não estão nem um pouco desanimados. Ao contrário: parecem empolgados em começar mais um dia de atividades no Parque Nacional das Emas, em Goiás, embora a tarefa que os aguarde, aparentemente, não seja das mais entusiasmantes.

Os quatro têm que localizar fezes de animais ameaçados de extinção, como o tamanduá-bandeira e a onça-pintada. O cocô, acredite se puder, é material fundamental para uma pesquisa que está sendo realizada por uma cientista americana na região, com o apoio de instituições brasileiras. Mas se você pensa que Mason, Ally, Marvin e Gator são também pesquisadores, cuidado para não ficar de queixo caído: na verdade, os quatro são cães farejadores – grandes amigos do homem que, agora, também se tornaram aliados da ciência.

Trazidos dos Estados Unidos, os três machos e uma fêmea têm entre dois e seis anos e foram treinados para localizar fezes de espécies que estão ameaçadas de extinção. Ter essa habilidade é importante porque a partir da localização do cocô do tamanduá-bandeira, do lobo-guará, da onça-parda, da onça-pintada, do tatu-canastra e da anta, a bióloga americana Carly Vynne, da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, pode obter muitas informações sobre bichos.

“Por meio das fezes, podemos saber, por exemplo, o que os animais comem. Isso porque, nelas, achamos itens da dieta do animal, como pêlos e ossos das presas, além de outros materiais, como carapaças de tatu, pés de roedores... Para dar uma idéia, nas fezes dos lobos-guará, achamos sementes das frutas que eles comem. Assim, podemos aprender quais frutas fazem parte da sua alimentação, assim como saber onde e quando eles as ingeriram”, explica a pesquisadora americana.

Essa, porém, não é a única informação que as fezes oferecem aos pesquisadores. Eles também podem encontrar, ali, o DNA de cada animal: isto é, a molécula que determina as suas características físicas. Como nenhum bicho tem o DNA igualzinho ao do outro, na prática, isso significa que os cientistas, diante de várias fezes de lobo-guará, sabem direitinho se elas pertencem a um único lobo ou a vários indivíduos diferentes. Tudo porque, nas fezes, eles encontram algo que poderíamos comparar a uma carteira de identidade: o DNA, algo que identifica cada lobo e o diferencia dos outros.

Há ainda muito mais dados que as fezes de um animal oferecem aos pesquisadores. Mas se você pensa que encontrar essa mina de informações é moleza para os cães, está enganado. Afinal, estamos falando de fezes de animais ameaçados de extinção, ou seja, de bichos que existem em número reduzido, tanto é que correm o risco de desaparecer. E mais: que estão espalhados por uma área de grandes dimensões.

Para você ter uma idéia, a pesquisa conduzida por Carly Vynne é realizada em uma área de três mil quilômetros quadrados, o equivalente a trezentos mil campos de futebol. Apesar disso, os cães não desanimam. “Mesmo se estão com dificuldade para encontrar as fezes, eles trabalham horas à sua procura, esperando a recompensa que lhes é dada: bolas de tênis”, explica a bióloga americana.

Os cachorros, porém, não andam pelo Parque Nacional das Emas sozinhos. Eles têm sempre a companhia de um pesquisador, que precisa estar em boa forma, gostar de andar muito, além de cuidar do seu companheiro de quatro patas, dando-lhe água, evitando situações de risco etc. “Por dia, cada cientista cobre uma área de 10 quilômetros, enquanto o cachorro percorre de 30 a 40 quilômetros e é capaz de localizar uma amostra a até 200 metros de distância”, conta a bióloga. Segundo ela, é muito difícil os cães trazerem fezes que não são dos animais pesquisados. Em cada 100 amostras encontradas, geralmente eles só erram em três.

Assim que um cão encontra algo, aliás, o pesquisador que o acompanha usa um aparelho chamado GPS para determinar exatamente onde as fezes foram localizadas, o que, por si só, já é um dado importante. “A partir disso, nós sabemos que um animal esteve nessa localização, que apresenta características que precisam ser analisadas. Por exemplo: qual tipo de hábitat essa localização apresenta? Ela está dentro ou fora do parque? Há alguma estrada próxima? Assim, podemos entender onde os animais preferem ficar, se a vegetação é abundante ali, entre outras questões”, conta Carly.

Dados assim contribuem para que se entenda como os animais estão utilizando os ambientes que existem dentro e fora do Parque Nacional das Emas. Dessa forma, é possível pensar em ações eficazes para proteger as espécies ameaçadas de extinção que vivem ali. Como se vê, mais do que amigos do homem, os quatro cães farejadores americanos são grandes parceiros da fauna brasileira que corre o risco de desaparecer!



Mara Figueira
Ciência Hoje das Crianças
25/07/2008


Confira algumas fotos.
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Os cães farejadores foram treinadores para achar fezes de animais ameaçados de extinção, como o tamanduá-bandeira (foto: Haroldo Castro/CI-Brasil).


Um dos cães farejadores encontra fezes no Parque Nacional das Emas, em Goiás (foto: Carly Vynne/CI-Brasil).


Fezes de onça-parda que foram localizadas pelos cães farejadores (foto: Carly Vynne/CI-Brasil).


Pesquisador caminha pelo Parque Nacional das Emas em companhia de um cão farejador (foto: Carly Vynne/CI-Brasil).


O ponto vermelho indica onde fica o Parque Nacional das Emas dentro do território brasileiro (imagem: CI-Brasil).


O Parque Nacional das Emas é uma área de cerrado (foto: Cristiano Nogueira/CI-Brasil).


Vista aérea do Parque Nacional das Emas (foto: Haroldo Castro/CI-Brasil).

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