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  GALERIA :: PALEONTOLOGIA

Origens de uma estranha anatomia
Morfologia de peixes com os dois olhos no mesmo lado da face evoluiu gradualmente, revelam fósseis


A análise de fósseis de peixes de 50 milhões de anos – na imagem, uma nova espécie, batizada de Heteronectes chaneti – revelou formas intermediárias do grupo dos pleuronectiformes, com um dos olhos deslocado para o topo da cabeça (acima) e o outro na posição original (abaixo). Clique na imagem para ampliá-la (foto: M. Friedman).

Um grupo de peixes famoso por sua anatomia bastante peculiar começa a ter sua trajetória evolutiva esclarecida. A análise de fósseis das mais primitivas espécies conhecidas desse grupo, que se caracteriza pela presença dos dois olhos no mesmo lado da cabeça, mostrou que esse traço morfológico evoluiu gradualmente, ao contrário do que acreditavam os especialistas.

O grupo dos pleuronectiformes, que inclui peixes bastante conhecidos da culinária, como o linguado, reúne atualmente mais de 500 espécies de água doce e salgada. Todas têm o corpo achatado e costumam viver no fundo de oceanos e rios, deitadas sobre um lado de seu corpo. Tipicamente, o lado inferior desses peixes é claro e a parte superior é camuflada para se ajustar ao ambiente.

A característica mais marcante dos animais desse grupo – a localização dos dois olhos no mesmo lado da cabeça – surge ao longo de seu desenvolvimento. Os pleuronectiformes nascem com o crânio simétrico e, ao passar da fase larval para a juvenil, sofrem uma metamorfose: um de seus olhos migra lentamente para cima da cabeça, até se posicionar definitivamente do lado oposto do crânio na fase adulta. Essa assimetria permite que esses peixes fiquem deitados no fundo e usem os dois olhos ao mesmo tempo, seja para caçar ou para se esquivar de predadores.

Embora a biologia dessa adaptação seja bem conhecida, havia uma lacuna em sua trajetória evolutiva que desafiava há séculos os estudiosos. O inglês Charles Darwin (1809-1882), pai da teoria da evolução, chegou a sugerir que essa mudança morfológica teria ocorrido lentamente e se propagado por meio de um processo de herança de traços adquiridos.

Mais tarde, consolidou-se a hipótese de que os peixes desse grupo tiveram uma origem repentina, a partir de mutações genéticas em larga escala. A evolução gradual desses animais, por meio de seleção natural, não era aceita, porque, para muitos biólogos, as formas intermediárias (com um crânio ligeiramente assimétrico) não teriam qualquer vantagem evolutiva.

Evidências de evolução gradual
Um estudo feito por Matt Friedman, da Universidade de Chicago e do Museu do Campo, nos Estados Unidos, fornece agora evidência inédita de que esses estágios intermediários existiram. A análise de fósseis de duas espécies de peixes de cerca de 50 milhões de anos mostrou que eles tinham o crânio bastante assimétrico, mas seus olhos permaneciam em lados opostos da face, embora um deles se localizasse no topo da cabeça.

Os peixes pleuronectiformes, como essa espécie de linguado americano (Pleuronectes platessa), têm os dois olhos do mesmo lado da cabeça, uma característica adequada ao estilo de vida desses animais, que ficam deitados sobre um dos lados de seu corpo no fundo de oceanos e rios. Clique na imagem para ampliá-la (foto: Wikimedia Commons).

“Além disso, esses peixes compartilham especializações adicionais com os outros pleuronectiformes, embora também apresentem características mais primitivas do que as encontradas nos espécimes vivos do grupo”, diz Friedman à CH On-line.

Uma das espécies primitivas analisadas foi descrita como um novo gênero e batizada de Heteronectes chaneti. Os outros peixes pertenciam ao gênero Amphistium, que, embora tenha sido descrito há mais de 200 anos, permanecia com a classificação incerta. Os fósseis, coletados no fim século 18 e início do século 19 em sítios na Itália e França, estavam guardados em museus.

A identificação desses peixes como pleuronectiformes primitivos foi possível graças ao uso de imagens de tomografia computadorizada e de substâncias químicas para dissolver os restos de rocha ao redor dos fósseis. Além disso, o pesquisador examinou esqueletos e imagens de raios-X de peixes modernos do grupo.

“Amphistium e Heteronectes resgatam a primeira imagem clara das origens dos pleuronectiformes”, diz Friedman no artigo que relata o estudo, publicado na Nature desta semana. A análise também fornece indícios do estilo de vida desses peixes primitivos, que eram predadores. Um espécime de Amphistium foi preservado com restos de sua última refeição no estômago: um peixe com aproximadamente metade do seu tamanho.

A morfologia incomum dos pleuronectiformes e seu comportamento de repouso são considerados adaptações para a emboscada de presas. Segundo Friedman, mesmo a assimetria incompleta da cabeça das formas intermediárias desses animais, com um olho levemente deslocado, daria a eles uma vantagem evolutiva nesse caso. “Muitos pleuronectiformes se apóiam sobre suas nadadeiras quando estão deitados no fundo do mar. Se esses peixes primitivos fizessem o mesmo, eles teriam ao menos algum uso para o olho que migrou e, conseqüentemente, uma visão melhor”, pondera.


Thaís Fernandes
Ciência Hoje On-line
09/07/2008

 

 
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