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ESPECIAIS :: COP8-MOP3
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Atrás de reconhecimento Rede latino-americana usa pesquisa com plantas medicinais no desenvolvimento regional
Países latino-americanos formam há quase dez anos uma rede de pesquisa e difusão do emprego de plantas medicinais. No Brasil, os estudos levaram à formação da Farmacopéia Popular do Cerrado, que beneficia mais de 7 mil pessoas por mês e contribui para o desenvolvimento regional. O uso popular dessas plantas e o conhecimento tradicional a elas associado foram discutidos em evento paralelo da COP8.
A Rede de Plantas Medicinais da América do Sul, da qual fazem parte Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Uruguai, se formou em 1998 e propicia o intercâmbio de experiências e o fortalecimento das redes nacionais participantes. Uma das metas é identificar meios de defender o conhecimento tradicional e garantir o livre acesso das comunidades às plantas medicinais.
A rede criou e difundiu um método para discutir o tema ‘conhecimento tradicional’ e ‘propriedade intelectual’ com as comunidades participantes. Cientistas de cada país-membro realizaram pesquisas sobre plantas medicinais nativas, identificando espécies de áreas altamente degradadas. “Priorizamos os estudos que estabeleciam relações entre plantas medicinais e conservação ambiental”, disse Jaqueline Dias, representante da Articulação Pacari, que coordena o projeto no Brasil. A estratégia, afirma Dias, resultou em metodologias de restauração ambiental e na elaboração de farmacopéias populares por ecossistemas.
Cada país teve autonomia para aplicar o conhecimento adquirido na área que julgasse conveniente, pois em cada região há um modo distinto de interação do indivíduo com o ambiente. Na Argentina, o foco foi o sistema público de saúde. Nesse país, vale lembrar, os centros de saúde dispõem de muitas farmácias populares. No Chile, o trabalho se concentrou na restauração de ambientes e, no Uruguai, na valorização da memória cultural local.
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Barbatimão, planta medicinal do cerrado brasileiro usada em pesquisas científicas.
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O programa brasileiro Farmacopéia Popular do Cerrado atende mensalmente cerca de 7.300 pessoas. O programa ensejou a pesquisa de 267 espécies de plantas em 29 ambientes diferenciados do cerrado, objetivando sua aplicação na realidade local. Durante a pesquisa procurou-se levantar, entre outros dados, o nome da espécie, os ambientes em que ocorre, manejo para coleta, aplicação e efeitos colaterais.
A partir dessa análise, foram selecionadas 75 espécies (entre elas o barbatimão, o pacari, o pé-de-perdiz e o rufão), das quais foram obtidas 15 formas de medicamentos populares, como chás, pomadas e xaropes, que apresentam 40 variações. O uso comercial das receitas só é permitido com autorização expressa das comunidades e do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético.
A rede nacional tem o apoio do Ministério do Meio Ambiente e é coordenada pela Articulação Pacari, fórum que agrega quase uma centena de associações comunitárias e organizações não-governamentais de Goiás, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Minas Gerais e Tocantins. A Pacari luta pela regulamentação das farmácias populares e das práticas da medicina popular, além de oferecer treinamentos e cursos.
Diálogo de saberes A pesquisa da rede latino-americana detectou que as comunidades tradicionais são a mais importante fonte de informação sobre plantas medicinais. Em contrapartida, elas não têm acesso aos resultados dos estudos feitos a partir dos dados que forneceram. “Essas pessoas precisam e merecem receber informação sistematizada sobre as plantas, transmitida em linguagem acessível”, defende a representante da Articulação Pacari.
Uma das constatações do estudo é a necessidade de um “diálogo de saberes”, construído a partir de conhecimentos populares, tradicionais e científicos. A perspectiva é validar o conhecimento popular por meio de conhecimento científico, com construção de metodologias participativas de pesquisa, aplicando os resultados no desenvolvimento local. “Pela primeira vez no Brasil, comunidades tradicionais se articulam para sistematizar seus conhecimentos, em um processo que capacitou especialistas, informantes tradicionais, representantes de comunidades, técnicos e estudantes”, conta Dias. Ela ressalta que o processo de sensibilização e capacitação dos diferentes atores sociais é essencial para a continuidade do trabalho após o término do projeto.
Essa articulação pode levar à criação de políticas públicas voltadas para as plantas medicinais – tão clamadas pela rede. “Estamos dando um passo importante nessa direção e no sentido de buscar instrumentos que validem a medicina popular”, afirma André Stella, do Ministério do Meio Ambiente brasileiro.
Luciana Cristo Especial para a CH On-line / PR 28/03/2006
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