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 REVISTA CH 223 - JANEIRO/FEVEREIRO DE 2006 - A PROPÓSITO

Ler ou não ler?
Colunista discute a atualidade e a importância do clássico de Darwin A origem das espécies


Charles Darwin aos 51 anos.
Uma pesquisa sobre os livros mais vendidos de todos os tempos revela unanimidade apenas nos dois primeiros lugares. Na cabeça da lista vem a Bíblia e depois o livro de citações do ex-dirigente chinês e teórico marxista Mao Tse-Tung (1893-1976). Este só atingiu o segundo lugar porque, após a revolução cultural na China, o país mais populoso do mundo, todos os cidadãos eram obrigados a ter sua cópia. Os títulos que se seguem a estes variam, dependendo das fontes consultadas. Mesmo que as listas sejam estendidas aos 100 livros mais vendidos, muitas obras importantíssimas ficam de fora.
 
Um exemplo notável é a contribuição seminal de Charles Darwin (1809-1882), A origem das espécies. Ao ser publicado, em 1859, o livro foi um campeão de vendas, embora as tiragens iniciais tenham sido pequenas para os padrões atuais. No entanto, diferentemente da Bíblia, após o sucesso inicial, gradualmente o interesse do público diminuiu. Hoje, mesmo entre estudantes de biologia de graduação e pós-graduação, e entre seus professores, são poucos os que já leram A origem das espécies. Isso não os impede, entretanto, de citar Darwin com a autoridade de quem conhece sua obra intimamente. Nesse aspecto, guardadas as devidas proporções, A origem, embora menos lida, talvez seja quase tão citada quanto a Bíblia.
 
Por que acontece esse fenômeno? Seria o caso de a hipótese de Darwin conter falhas? De não se manter robusta diante de novas evidências? Aparentemente, não. Apesar das críticas apaixonadas, das variadas interpretações e dos apêndices acrescentados nos últimos 145 anos, A origem não perdeu nada em importância e vigor e ainda pode ser descrita como a hipótese mais central e unificadora da biologia. Em outras palavras, não existe uma alternativa séria para o modelo de Darwin e, portanto, este permanece incólume e promete ser longevo. O texto é árido ou obscuro? Mais uma vez, não. A origem das espécies foi escrita tendo em mente o público geral. Na verdade, o estilo é quase coloquial, sem lançar mão do jargão científico, e a leitura independe de conhecimento prévio especializado.
 
Provavelmente aconteceu com Darwin o mesmo que ocorreu com Einstein e outros gigantes. O autor e as circunstâncias históricas passaram a ser mais atraentes que a obra propriamente dita. De fato, as biografias de Darwin têm hoje muito mais destaque nas livrarias que o livro que lhe deu fama. Outros personagens envolvidos na trama de A origem também são campeões de vendas. Uma biografia do capitão Robert Fitzroy (1805-1865), o anfitrião de Darwin na famosa viagem de volta ao mundo a bordo do Beagle, é também bastante popular, principalmente em função de sua personalidade peculiar e de seu antagonismo às idéias blasfemas de Darwin. Por que, então, o desterro de A origem?
 
É possível que essa rejeição não seja dirigida especificamente contra Darwin. Como outros pensadores influentes, ele parece ter sido vítima de um fenômeno atual e geral que resulta de duas tendências principais: as pessoas lêem menos e, quando o fazem, buscam leituras mais leves, digestivas, que não exijam um trabalho intelectual mais apurado. Basta ver o enorme sucesso de livros pseudocientíficos, em especial os de ‘auto-ajuda’.
 
Outros fatores também influem. Nos tempos mais recentes, a internet introduziu uma forte competição à leitura tradicional, com seu enorme e acessível poder informacional. É muito mais fácil, hoje, obter informações instantâneas sobre qualquer assunto do que realizar buscas em material impresso – em bibliotecas, por exemplo. A internet poderia significar um grande avanço educativo, se não trouxesse uma contrapartida preocupante. Com ela surgiu também a fobia à prolixidade. Quem se informa eletronicamente exige textos necessariamente curtos e objetivos. O estilo de Darwin e de outros escritores de sua época certamente provocaria surtos de impaciência nos leitores de hoje, sobretudo aqueles mais jovens. O resultado, como se vê, é uma ilusão de conhecimento. É a cultura baseada na citação das citações.
 
Em tempo: quantos, entre os leitores da CH, já leram A origem das espécies?


Franklin Rumjanek
Instituto de Bioquímica Médica,
Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

 
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