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Drogas psicotrópicas e a política de saúde pública no Brasil Criação dessa política é urgente e deve ser respaldada em dados científicos, defendem autores
Na década de 1980, a falta de conhecimento sobre o consumo de drogas psicotrópicas no Brasil levou o país a adotar o modelo de política repressiva exportado pelos Estados Unidos, para o combate principalmente da maconha e cocaína. Vinte anos depois, o número de usuários dessas substâncias cresceu, denunciando a inadequação de medidas exclusivamente repressivas. Os problemas de saúde decorrentes do consumo de álcool, tabaco, solventes e medicamentos psicotrópicos continuaram sendo maiores do que os provocados por drogas ilícitas, mas as políticas de saúde se mostram negligentes frente à questão. Urge criar uma política de saúde pública respaldada em dados científicos, que permita criar campanhas adequadas a cada setor da sociedade envolvido no problema.
O enorme volume de informações disponíveis sobre drogas psicotrópicas atualmente tem gerado mais dúvidas do que conhecimento. Sem contar que as informações válidas para uma determinada sociedade podem não se aplicar a outras culturas ou realidades sociais e econômicas diversas.
O Brasil apresenta diferenças regionais marcantes quanto ao poder aquisitivo da população, acesso à saúde, nível de educação e peculiaridades culturais, que se refletem no cenário do consumo de drogas psicotrópicas. No entanto, existem poucos estudos consistentes nessa área. A carência de dados abre espaço para especulações e, portanto, deixa o país vulnerável a políticas públicas importadas, quase sempre inadequadas à nossa realidade.
Um exemplo histórico ocorreu na década de 1980. Considerado rota de tráfico, o Brasil começou a receber forte influência do movimento intolerante e repressivo dos Estados Unidos. Até então, não se tinha idéia da situação nacional, o que abriu espaço para diversas medidas repressivas. Baseando-se em dados estrangeiros, a mídia passou a enfatizar excessivamente o consumo de maconha e cocaína, despertando a curiosidade da população e mobilizando a opinião pública. Os primeiros estudos abrangentes, realizados no final da década de 1980, mostraram que naquele momento a situação nacional era diferente da norte-americana, sendo muito inferior e relativamente estável o número de estudantes usuários de substâncias ilícitas.
Por outro lado, o número de usuários e os problemas de saúde decorrentes do consumo de álcool, tabaco e medicamentos psicotrópicos (substâncias que também atuam no sistema nervoso alterando o comportamento) superavam em muito os de drogas ilícitas. Um estudo realizado entre estudantes de 1º e 2º graus em 1987, em 10 capitais brasileiras, mostrou que cerca de 75% dos jovens já haviam consumido bebidas alcoólicas e 22% já tinham fumado tabaco. O uso de inalantes (lança-perfume, loló, cola, entre outros) foi relatado por 14,7%, e o de medicamentos psicotrópicos por 12,1%, proporções muito maiores que as de maconha (2,8%) e cocaína (0,5%). Na mesma ocasião, o álcool era responsável por 95% das internações hospitalares decorrentes do uso de drogas, enquanto, para a maconha, esse índice era de 1,4% e, para a cocaína, de 0,8%.
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Ciência Hoje 181, abril 2002 Ana Regina Noto Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (CEBRID), Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo e Maria Lucia O. S. Formigoni Unidade de Dependência de Drogas (UDED), Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo |