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 ESPECIAIS - CLONAGEM HUMANA

Glória Perez: "Não clonaria minha filha"
Autora discute técnica e fala de sua assessoria científica para elaborar novela


A novela O Clone -- no ar desde 1o de outubro -- pode ser o mais novo espaço aberto na televisão brasileira para estimular o debate sobre clonagem humana na sociedade. A autora, Glória Perez, acredita que os clones como cópias do ser humano não são o grande ’escândalo’. Para ela, a grande transgressão é o clone transgênico, quando se mistura uma espécie com outra e se produzem seres que a natureza nunca foi nem será capaz de criar.

Mesmo tendo sofrido a dor de ver sua filha Daniela cruelmente assassinada em 1992, Glória não a clonaria: "Um clone não é a mesma pessoa, apenas a mesma figura física. Desse ponto de vista, clonar um filho perdido seria estar diante de sua ausência da forma mais cruel. Pelo menos eu sentiria assim."

Você acredita que a novela estimulará o debate na sociedade sobre clonagem humana?

Acho que sim. As novelas têm muita força para levantar debates, e esse é um assunto que é mais do que oportuno discutir agora: afinal de contas, a evolução da espécie é da conta de todos nós. Não é justo que essa discussão permaneça elitizada.

Você teve ou tem alguma assessoria de cientistas?

Converso em especial com o doutor Valter Pinto, de Campinas, que desde Barriga de aluguel me dá assessoria nos assuntos científicos. É claro que cometo umas licenças poéticas. O que interessa mesmo, no caso, é imaginar que conflitos novos esse avanço científico introduz nas nossas vidas. É especular como se sentiria alguém que chegasse ao mundo como cópia de alguém, sem ter nascido de pai e mãe, como todo mundo, alguém que não caberia em nenhuma das relações familiares que conhecemos hoje -- essa pessoa não é filho, não é irmão, não é neto... É cópia. Só está relacionado com uma matriz. Por outro lado, temos também os conflitos do clonado: como será ter uma cópia, poder estar frente a frente com sua imagem 20, 30 anos mais jovem? Em síntese, estamos falando de identidade.

Na novela, os clones terão personalidades diferentes? Há mais de um clone?

Não. Há um só. Lucas (o clonado) tem 18 anos quando a novela começa. Na segunda fase, terá 40. É quando ele encontra Leandro (o clone), que estará com 18.

Você acha que a clonagem humana deve ser feita? Que limites éticos a pesquisa deve ter?

Escrever sobre um assunto é uma maneira de pensar sobre ele. Agora, o clone cópia de alguém não é o grande ’escandalo’! A grande transgressão é o clone transgênico, quando se mistura uma espécie com outra, se rompe a barreira das espécies e se produzem seres que a natureza não criou. Aí a gente lembra que os gregos pensaram mesmo em tudo, até nos clones trangênicos: o que são senão as sereias, os centauros, os minotauros?

Se você tivesse a chance de clonar a Daniela, você o faria?

Não. O clone não é a mesma pessoa, é apenas a mesma figura física. Desse ponto de vista, clonar um filho perdido seria estar diante de sua ausência da forma mais cruel. Pelo menos eu sentiria assim.


Ciência Hoje 176, outubro 2001
Alicia Ivanissevich
Ciência Hoje/RJ

 
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