
Esta análise baseia-se no exame de material publicado pela imprensa escrita desde o início de 1997, com a notícia do nascimento da ovelha Dolly, primeiro mamífero clonado a partir de um animal adulto, até agosto de 2001, quando dois especialistas em reprodução humana (Severino Antinori e Panos Zavos) anunciaram deter todos os meios necessários para iniciar experiências em clonagem reprodutiva humana no mês seguinte.
O escândalo moral diante da clonagem decorre do núcleo ideológico da cultura ocidental. É importante ressaltar que esse processo jamais despertou controvérsia entre o grande público enquanto era realizado em animais bem diferentes do ser humano, como anfíbios. O advento de Dolly mudou a situação. Para os geneticistas, a clonagem de um mamífero totalmente formado significou apenas a possibilidade de reprogramar o DNA maduro para que funcionasse como DNA embrionário.
Para os leigos, porém, Dolly representou a ameaça de utilização dessa técnica de clonagem de um mamífero adulto para ’copiar’ um ser humano. Os debates sobre o tema não condenam o avanço científico -- este não é considerado bom nem mau em si mesmo. O imperativo da ciência de aliar progresso e responsabilidade, porém, vem acompanhado da percepção de que formar um clone humano é algo inevitável, porque a ciência, obtidos os meios, não se furtaria à sua aplicação, mesmo que danosa.
Nesse contexto, surgem as acusações contra Antinori e Zavos: tais médicos seriam pseudocientistas, que planejariam criar monstros, como o doutor Frankenstein do livro de Mary Shelley. Isso porque a prática da clonagem humana sugere pesadelos totalitários, como a reencenação do nazismo e das experiências de Josef Mengele (representadas no filme Os meninos do Brasil pela criação de um exército de cópias de Adolf Hitler), ou a concretização do ’admirável mundo novo’ do romance de Aldous Huxley , com a produção de seres humanos não reconhecidos como tais -- idéia também presente no filme Blade Runner, o caçador de andróides. Reagindo às críticas, Antinori pretende colocar-se no papel de Galileu Galilei, dizendo ser, como este, um cientista perseguido por interesses obscurantistas.
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