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A técnica de clonagem de mamíferos Artigo apresenta processo que, embora bem-sucedido com animais, ainda é ineficaz
Quidquid agis, prudenter agas et respice finem (Qualquer coisa que faças, age com prudência e considera o fim) Provérbio medieval
O anúncio de que já existem projetos para a clonagem de seres humanos vem provocando grande polêmica. Apesar dos sucessos obtidos com outros mamíferos (como ovelhas, bois e porcos), é preciso considerar que o processo de clonagem é ainda muito ineficiente e apresenta grande número de dificuldades, o que torna prematura qualquer tentativa de aplicá-lo a humanos. O desenvolvimento da técnica pode trazer muitos benefícios (como na produção de tecidos para transplantes), mas será difícil justificar a clonagem de um indivíduo.
O termo ’clone’ foi cunhado em 1903 pelo botânico Herbert J. Webber, que pesquisava hidridação de plantas no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. O significado do termo, definido pelo próprio Webber é "uma colônia de organismos que, de modo assexuado (sem intervenção de sexo), deriva de apenas um progenitor". A maçã Granny-Smith, variedade apreciada por gerações de degustadores de boas tortas, é um dos muitos exemplos de um clone desenvolvido por horticultores. Desde sua criação, o termo caiu no agrado dos cientistas e tem sido usado até os dias atuais, sem que a definição original tenha se desvirtuado.
Os clones não chamaram maior atenção durante muitos anos, pois a clonagem restringia-se principalmente a plantas e a protozoários -- os últimos multiplicam-se naturalmente de forma assexuada. Hoje, porém, o interesse pelos clones renasceu agudamente, com a aplicação da técnica da clonagem a seres que normalmente se reproduzem de forma sexuada. Em 1997, a clonagem histórica da ovelha Dolly -- um clone autêntico, por ter sido gerada a partir de uma célula somática (já diferenciada) de um doador adulto -- deflagrou um intenso debate, que prossegue até os dias de hoje. Esse tipo de clonagem provocou sensação devido à percepção imediata de que o processo poderia em pouco tempo ser realizado com o ser humano, o que compreensivelmente inflamou a imaginação popular.
No entanto, guardadas as devidas proporções, a história da clonagem de animais não é novidade. Esse tipo de pesquisa já vinha ocorrendo desde os anos 70, com graus variados de sucesso. Na verdade, no início dos anos 80 os cientistas estavam quase desistindo da clonagem de mamíferos. Em 1984, o pesquisador David McGrath e o imunologista iugoslavo Davor Solter, por exemplo, chegaram a anunciar que os recursos técnicos da época estavam esgotados: "A atividade diferencial dos genomas materno e paterno e os resultados apresentados aqui sugerem que a clonagem de mamíferos através de simples transferência nuclear é biologicamente impossível." A atividade diferencial dos genomas é o imprinting (ver adiante o que é).
Essa perspectiva não desanimou outras gerações de pesquisadores e, como resultado, camundongos, carneiros, bezerros e porcos já foram clonados. No entanto, longe de constituir um arauto para a clonagem humana, esses aparentes sucessos trouxeram em si uma mensagem cautelar que pode ser resumida no seguinte: (1) o procedimento de clonagem é ainda muito ineficiente para todas essas espécies (em média, só 1% dos ovócitos manipulados desenvolve-se até a fase adulta), e as razões dessa ineficiência ainda são em grande parte desconhecidas, e (2) o fator mais importante para o desenvolvimento correto do clone talvez seja a chamada ’reprogramação’ do genoma transferido para a célula recipiente, um fenômeno sobre o qual é mínima a informação disponível.
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Ciência Hoje 176, outubro 2001 Franklin David Rumjanek, Departamento de Bioquímica Médica, Universidade Federal do Rio de Janeiro |