BUSCA  DICAS
 
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   



  REVISTA CHC 157 - MAIO DE 2005

O boi não bateu asas, mas voou
Conheça a incrível história do animal que passeou pelos céus de Recife no século 17!

 
E então: você acreditaria se alguém lhe contasse que boi voa? Brincadeira ou não, no tempo em que os holandeses invadiram o Recife, um boi voou nos céus da cidade. Essa história, que pode parecer sem pé nem cabeça, começa assim...
 
Você já deve ter ouvido falar que, para explorar as riquezas naturais do Brasil, veio gente de toda parte. Entre 1580 e 1640, os reinos de Portugal e Espanha dividiam o domínio de nosso território. Nessa história, havia também os holandeses, antigos parceiros dos portugueses na produção de açúcar e responsáveis por sua distribuição no mundo, mas inimigos dos espanhóis. E aí, tudo começa.
 
Proibidos pelos espanhóis de continuar no Brasil, os holandeses, a partir de 1630, invadiram e dominaram boa parte do Nordeste. Até 1654, fizeram a sede do governo Brasil Holandês em Pernambuco. Entre seus principais feitos está a fundação da cidade de Maurícia, na Ilha chamada Antonio Vaz, atual Recife. O nome da cidade foi uma homenagem ao governante mais famoso nas conquistas holandesas no nordeste brasileiro: o Conde Maurício de Nassau. Ele governou o chamado Brasil holandês entre os anos de 1636 e 1644, e foi o responsável pelo inesperado vôo do tal boi.


Um dia, um boi, uma ponte

No dia 28 de fevereiro de 1644, um domingo, seria inaugurada uma ponte de madeira que o Conde de Nassau havia construído em Recife. Para a ocasião, o nobre holandês organizou um grande espetáculo de comemoração que marcaria também o dia de sua partida do Brasil em retorno à Holanda. Ele queria muita gente e, para isso, conclamou toda a população para assistir a um fato inusitado: ele faria “um boi voar” sobre sua ponte.

A ponte sobre o rio Capibaribe separava Recife, sede do governo, da ilha de Antonio Vaz, onde o Conde morava. Era uma obra grandiosa. A ponte possuía uma parte levadiça, permitindo a passagem de grandes embarcações. E o boi, como havia prometido o governante, iria voar sobre ela
 
Ninguém conseguia imaginar de que forma um animal pesado e terrestre como um boi poderia voar. Nassau, por sua vez, aproveitaria a curiosidade geral para ganhar dinheiro e recuperar os gastos com as obras de construção. Todos que quisessem assistir ao espetáculo teriam de pagar uma quantia em dinheiro.
 


No finzinho da tarde do domingo, o Conde colocou um boi empalhado pendurado numa corda que estava amarrada entre as duas torres do Palácio Friburgo, sede de seu governo, pagando sua dívida com a sociedade.

Como assim?
Embora parecesse mágica ou algo inexplicável, Maurício de Nassau nada mais fez do que usar sua engenhosidade e seus conhecimentos básicos de ciência. Primeiro, escolheu o animal que participaria do espetáculo. Deveria ser um boi manso, que se mantivesse parado durante todo dia, para ser observado por todos. Escolheu então o "boi do Melchior", um animal de pêlo amarelado, famoso na cidade por entrar nas casas e subir escadas.
 
Enquanto o povo observava de dia, no chão, o boi que iria voar à noite, o Conde ordenou que se arranjasse um bom pedaço de couro, do tamanho mesmo de um boi de verdade. Empalhado, o pedaço de couro foi inflado como um balão. Aí, foi amarrado em cordas bem finas, que não pudessem ser vistas pelo público, que lotava as praias e os barcos. Preso por roldanas, o falso boi foi controlado por alguns marinheiros que o faziam dar muitas cambalhotas em pleno ar para o delírio de todos que pagaram para assistir ao grandioso espetáculo!
 

Boi voador não pode
De Chico Buarque e Ruy Guerra

Quem foi, quem foi
Que falou no boi voador
Manda prender esse boi
Seja esse boi o que for

O boi anda dá bode
Qual é a do boi que revoa
Boi realmente não pode
Voar à toa

É fora, é fora, é fora
É fora da lei, é fora do ar
É fora, é fora, é fora
Segura esse boi
Proibido voar

A apresentação aconteceu com a presença de muitas pessoas, certamente de queixo caído ao ver algo tão inesperado e maravilhoso. O conde foi muito aplaudido pela sua peripécia. Maurício de Nassau cumpriu a promessa de fazer um boi voar, ficando muito conhecido e admirado por todas aquelas pessoas pela sua criatividade e astúcia.
 
A inauguração da ponte com boi voador fez tanto sucesso que entrou para a história dos holandeses em Pernambuco. E mais, os cofres da Coroa holandesa faturaram uma boa cifra com a cobrança de ingressos, recuperando quase todos os gastos com a construção da ponte.
 
Por causa desta peripécia, de outras tantas e de suas grandes obras, o conde se tornou um personagem lembrado ainda hoje pelos pernambucanos.
 
A história do boi voador atravessa os tempos. Já virou letra de música (veja o quadro) e até tema de Escola de Samba!
 
 
Angelo Adriano Faria de Assis,
Departamento de História,
Universidade Federal Fluminense, e
FAFI PRONAFOR - MG,
Frank dos Santos Ramos,
Departamento de História,
Universidade Federal Fluminense, e
João Henrique dos Santos,
Departamento de História,
Universidade Federal do Rio de Janeiro.  
INÍCIO O INSTITUTO CH ON-LINE REVISTA CH CH DAS CRIANÇAS APOIO À EDUCAÇÃO CONTATO