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Um pequeno grande mistério
A rãzinha é a integrante deste mês da galeria de bichos ameaçados da CHC

Quando uma espécie de planta ou animal é encontrada apenas em uma determinada região do planeta os pesquisadores a chamam de espécie endêmica. O endemismo é muito comum entre sapos, rãs e pererecas da Mata Atlântica. Isso acontece porque lá as altitudes são variadas e existem ambientes especiais sem similares em outras florestas do mundo. Em um destes ambientes especiais, na Serra da Mantiqueira, no alto do Itatiaia, foi encontrada, em 1958, uma pequena rã batizada pelos cientistas de Paratelmatobius lutzii. O nome da espécie, lutzii, é uma homenagem ao famoso cientista brasileiro Adolpho Lutz, que, além de médico sanitarista, foi um importante estudioso de nossos anfíbios.

Apelidada de rãzinha, a espécie despertou muito interesse nos cientistas e, desde sua descoberta, nunca foi encontrada em outro local. Uma das características que mais chamam a atenção nesse animal, que mede cerca de dois centímetros, é seu colorido! Vista de cima, a rãzinha é cinza-escuro ou mesmo esverdeada, mas, por baixo, é preta com manchas brancas na barriga e vermelha nos braços e pernas.

Mesmo tendo sido descoberta há décadas, pouco se sabe sobre o modo de vida dessa espécie. Há registros de que ela era encontrada em uma área de poucos metros quadrados próximo a um local chamado de Brejo da Lapa, a mais de dois mil metros acima do nível do mar, onde o ambiente é bastante úmido com muitas pedras e musgos. Mas não se sabe, por exemplo, como a rãzinha se reproduz, como é seu canto e seus girinos nunca foram vistos. <

Existem outras quatro espécies consideradas parentes próximas de Paratelmatobius lutzii, ou seja, do mesmo gênero -- o nome científico é composto de duas partes, o gênero é a primeira parte. Mas todas as espécies do gênero Paratelmatobius são pouco conhecidas e raras vezes foram encontradas. As que são conhecidas vivem em áreas muito restritas na Serra da Mantiqueira ou na Serra do Mar.

Infelizmente, Paratelmatobius lutzii não é observada desde 1978. É um sumiço que pode ser considerado misterioso porque o local onde normalmente eram encontrados esses animais continua preservado e não há nenhuma razão aparente para seu desaparecimento. Os pesquisadores acreditam na possibilidade de que indivíduos dessa espécie ainda sobrevivam em locais semelhantes ao ambiente onde eram regularmente achados. Essa esperança se baseia, em parte, no fato de que os indivíduos dessa espécie não se reproduziam no local onde eram encontrados. Então, pode ser que Paratelmatobius lutzii sobreviva em locais ainda desconhecidos, mais apropriados para a reprodução, em outros pontos da Serra da Mantiqueira. Tomara, né?!

Ciência Hoje das Crianças 133, março 2003
José P. Pombal Jr.
Departamento de Vertebrados,
Museu Nacional/UFRJ.
Éllen C. P. Pombal,
Museu da Vida,
Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

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