Pedra de Rosetta solar
Astrônomo americano destaca importância de meteoros e asteróides para a compreensão do universo
O norte -americano Klaus Keil é um dos maiores especialistas mundiais em asteróides e meteoritos.
Estrelas de filmes-catástrofe ou coadjuvantes de histórias de ficção científica, asteróides e seus ‘parentes’ – meteoros, meteoritos e meteoróides – não se resumem, na vida real, apenas a perigos apocalípticos ou meios de transporte de monstros espaciais. Seja como testemunhas da criação do sistema solar ou como referência geológica de outros planetas, esses objetos são elementos importantes da pesquisa astronômica e fornecem pistas para processos que ocorreram há bilhões de anos, servindo ainda como fonte de informações para programas espaciais atuais.
Não é à toa que esses objetos foram o tema do curso ministrado por um dos especialistas mundiais no assunto, o astrônomo norte-americano Klaus Keil, em julho último, no Observatório Nacional (ON) e no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), ambos no Rio de Janeiro.
Pesquisador do Instituto de Geofísica e Planetologia do Havaí, nos Estados Unidos, Keil esteve envolvido com o programa espacial norte-americano desde o seu início. Ele compara os meteoritos à Pedra de Roseta (bloco que serviu de chave para a decifração dos hieróglifos), pois esses corpos ajudam a desvendar os primórdios do nosso planeta.
“Eles também nos ‘falam’ sobre a história do nosso sistema solar, de sua origem e dos materiais que o formaram”, diz o astrônomo. Nesta entrevista à
Ciência Hoje,
Keil falou não só dos testemunhos fornecidos pelos meteoritos, como também do perigo que esses objetos representam, suas possibilidades de auxiliar a humanidade na exploração do espaço e da chance de haver vida em outros planetas.
Qual a diferença entre asteróide, meteoro, meteorito e meteoróide?
Asteróides são objetos que viajam pelo espaço e têm um tamanho considerável, de até centenas de quilômetros de diâmetro. Quando eles colidem e se fragmentam, os pedaços podem entrar na órbita da Terra e cair no planeta. Se eles queimarem completamente na reentrada, os chamamos meteoros; se chegarem até o chão, meteoritos. Já um meteoróide é um pequeno asteróide. Temos que lembrar, no entanto, que meteoritos não vêm apenas de asteróides, embora dos 25 mil nas nossas coleções, 99,99% tenham se originado deles. Temos 55 ou 60 da Lua e 35 de Marte. Isso acontece porque, quando um asteróide colide com esses corpos celestes, lança material desses astros para o espaço, onde eles também podem vir a cair na Terra. Essa é a única maneira de se obter amostras de rochas para estudar a origem de Marte, já que nunca houve uma missão de exploração que tenha retornado de lá com esse material. Uma vantagem dos meteoritos lunares é que eles permitem escolher novos locais de pouso para missões na Lua de forma barata. Os meteoritos são o programa espacial de pobre.
Por que há tantos nomes para descrever o que é essencialmente uma rocha espacial?
É uma convenção. Asteróides eram conhecidos e observados muito antes de sabermos que os meteoros vinham deles – quando entrei nesse campo, no início dos anos 50, esse fato ainda era desconhecido. Só recentemente descobrimos propriedades nesses meteoritos que os ligavam aos asteróides. Por exemplo, havia uma rede de câmeras, nos Estados Unidos e na então Tchecoslováquia, para fotografar o céu noturno, que eram ativadas quando a bola de fogo gerada pela entrada na atmosfera aparecia no céu. Como havia várias câmeras em diferentes posições, era possível fazer uma triangulação e descobrir o local da queda. Além disso, extrapolando-se o trajeto do meteorito na atmosfera para o espaço, sempre se chegava ao cinturão de asteróides. Foi então que se começou a pensar que eles deveriam se originar desses objetos. Outro fato que reforçou essa idéia é que as leituras feitas com espectroscópios da luz refletida por um asteróide – que depende da constituição mineral deste – eram iguais às obtidas a partir dos meteoritos em laboratório.
Fred Furtado
Ciência Hoje/RJ
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