Chegou o Dia do Folclore
Para comemorar, venha ler seis lendas brasileiras contadas por quem entende do assunto!
Mitos, lendas, contos populares. Certas cantigas e algumas danças. Ditados, versos, provérbios. Trava-línguas, adivinhações, jogos. Brincadeiras, simpatias, receitas de remédio e até de cozinha. Sabe o que tudo isso forma? O folclore de um povo. Reunião das crenças, costumes e hábitos diversos de uma população, o folclore é tão importante que tem até um dia só para si no calendário: 22 de agosto.
Para comemorar o Dia do Folclore, a
CHC
convidou José Arrabal, grande estudioso e conhecedor desse tema, autor de livros como
O nacional e o popular na cultura brasileira
e
A princesa Raga-Si,
para contar para você, com exclusividade, seis diferentes lendas do nosso país. E aí? Pronto para acompanhar essas histórias?
HISTÓRIAS DO BRASIL, POR JOSÉ ARRABAL
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(Ilustração: Roger Mello)
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A matintapereira
A matintapereira é uma ave gigante que nem um grande urubu. Vive às margens do Amazonas, nas cidades pequenas e mesmo nas capitais.
Quando é noite muito escura, noite sem Lua Cheia, pousa em algum telhado na casa de rico ou de pobre e põe-se lá a piar. Quem ouve logo arrepia, fica coberto de medo.
Já no dia seguinte aparece nessa casa uma velhota animada exigindo prenda e fumo, bebida para tomar, esmola para viver. É a matintapereira agora que nem velhinha e ai de quem não atende aos pedidos que ela faz.
Todo mundo cumpre e cede. Dá esmola, dá bebida, fumo e algum presente. É o que se deve fazer. Juro que assim sempre fiz.
A serpente encantada
Em Jericoacoara, praia do Ceará, o mais bonito lugar do litoral brasileiro, vive em caverna de pedra uma serpente encantada com corpo de cobra grande e cabeça de princesa.
Conta o povo do lugar que essa moça encantada é rainha de cidade que tem debaixo das águas daqueles mares de lá, uma cidade imensa com mil casas de cristal, uma bela catedral e o palácio da princesa.
Diz que espera por rapaz, moço bonito e valente disposto a desencantá-la. Neste verão eu vou lá. Vou tentar desencantar a princesa cearense e virar rei do lugar.
Fique atento, há de saber, quando então acontecer. Juro que vou conseguir, se você torcer por mim. Não duvide. Pode crer.
O fantasma pé-de-louça
Muitos sabem da existência do fantasma pé-de-louça, que assombra Angra dos Reis, ronda Mangaratiba, assusta Sepetiba e tem pouso em Ilha Grande, no litoral fluminense.
Consta que é fantasma de marinheiro afogado em noite de tempestade quando afundou no mar caravela portuguesa carregada de azulejos, aparelhos de jantar, mais louçaria bonita, encomenda de ricaço que vivia no Brasil e era primo de um rei que tinha trono em Lisboa.
Muitos falam da existência desse náufrago infeliz, o fantasma pé-de-louça. Raros são os que encontraram essa alma do outro mundo. Quem viu logo enlouqueceu ou se tornou escritor de história de fantasma. Disto, eu tenho certeza.
A mula-sem-cabeça
Ora, mula-sem-cabeça existe em todo lugar e não há quem desconheça sua existência real, desde o norte até o sul de nosso Brasil inteiro. Tem corpo de mula brava e consta que solta fogo pelos olhos, pela boca, por narinas e orelhas, no fogaréu escondendo a cabeça que ela tem, daí, mula-sem-cabeça.
Nunca vi, mas sei quem viu e me contou pra contar nas histórias que escrevo. Viu essa mula em Goiás, viu também em Mato Grosso e viu rondando Brasília, a capital federal. Contou que era sempre a mesma, devido à cor da mulinha. Nisto não acreditei, certo de que eram três, pois em nosso centro-oeste é onde elas se reúnem, todas bastante assanhadas querendo encontrar parceiro entre os cavalos selvagens que vivem em liberdade no pantanal brasileiro.
O boitatá
No Rio Grande do Sul, o famoso boitatá é uma cobra de fogo que, em noite de luar, está sempre nas estradas, nos arredores das matas, para apagar as queimadas, defender os animais que amamentam suas crias, os passarinhos com ninhos.
Já em Santa Catarina, o boitatá conhecido é touro gigante e bravo que traz estrela na testa e chifres de meter susto, sendo justo protetor da natureza ofendida por ação de homens maus.
Vi a cobra e vi o touro. Nada de mal me fizeram, pois cuido de plantar plantas e respeito os animais, nunca prendo passarinhos e sei que o nosso planeta é casa de todos nós.
O saci-pererê
Entre os seres encantados de nosso vasto Brasil, não há nada mais feliz, não há nada mais alegre do que o saci-pererê. É menino e é festeiro, agitado, brincalhão, tem vez até que é arteiro e faz arte sem maldade, sempre com satisfação, espírito brasileiro.
Vi saci em todo canto, do Oiapoque ao Chuí, no Espírito Santo, no Acre, Minas, São Paulo, mais no nordeste inteiro e no Rio de Janeiro, conheci saci baiano, gaúcho, catarinense, paraense, amazonense, no Roraima, no Amapá e também no Paraná. Vi saci em Rondônia, vi saci em Tocantins, mais em todo o centro-oeste.
E quando era criança, na cidade em que nasci, tinha gente mentirosa que me via e assim dizia: “Mas que garoto danado! Um saci, esse menino!”. Tudo! Tudo invenção! Eu não era saci, não! Mas bem que queria ser!
Bia Aparecida
Ciência Hoje das Crianças
22/08/2008
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