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  ESPECIAIS :: 60a REUNIÃO ANUAL DA SBPC :: 2008

Tempo dará razão ao Inpe, diz Câmara
Diretor discute desmatamento na Amazônia e faz desabafo sobre acusações a sua instituição



Dados divulgados pelo Inpe no último dia 15 indicam que 1.096 km² de floresta foram derrubados em maio deste ano na Amazônia, área pouco menor do que aquelas medidas no mês anterior e em maio de 2007 (foto: acervo LBA).

Os últimos dados sobre a evolução do desmatamento na Amazônia foram divulgados no início desta semana pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ao apresentar esses números em uma mesa-redonda sobre o tema realizada na reunião anual da SBPC, o presidente da instituição, o engenheiro eletrônico Gilberto Câmara, aproveitou para dar sua opinião sobre a polêmica recente em que as medições do Inpe foram contestadas pelo governo do Mato Grosso.

Câmara não tem dúvida de que o tempo dará razão ao Inpe. "A relação entre poder e ciência é muito interessante", comparou. "Não é uma relação entre iguais, mas a desigualdade muda com o tempo. Em curto prazo, o poder tem a capacidade de prejudicar a ciência", explicou, citando o exemplo da prisão de Galileu ou a decisão de estados norte-americanos de não ensinar a teoria da evolução nas escolas.

"No longo prazo, no entanto, a ciência é mais forte. A verdade aparece e nem sempre é agradável para quem tentou prejudicar a pesquisa", completou. E arrematou, citando a primeira frase de O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira: "Se eu escapar desta, um dia vou escrever um livro."

Os dados de maio
Os números do desmatamento na Amazônia divulgados pelo Inpe no último dia 15 indicam que 1.096 km² de floresta foram derrubados em maio deste ano. Essa área é pouco menor do que aquelas medidas no mês anterior – 1.123 km² – e em maio de 2007 – 1.222 km².

Essas porções de terra abrangem tanto áreas de corte raso – em que a mata foi totalmente derrubada – quanto zonas de degradação progressiva, em que parte da cobertura florestal ainda está de pé. Os números foram monitorados por satélite pelo sistema Deter – sigla para Detecção do Desmatamento em Tempo Real –, criado em 2004 justamente para identificar áreas em que a derrubada está em curso.

Dos alertas de desmatamento apontados pelo Deter no mês de maio último, 60% correspondem a áreas em que houve corte raso e 29% a zonas de degradação progressiva – os 11% restantes foram regiões em que o desmatamento não foi confirmado e correspondem a "falsos positivos".

No início do ano, a validade das medições feitas pelo Inpe havia sido questionada pelo governo do Mato Grosso – estado historicamente campeão de desmatamento. O estado manteve em maio deste ano essa triste liderança, com 646 km² de área derrubada, ou 59% do total da Amazônia. O Inpe se viu no centro de uma grande polêmica sobre os métodos para medição do desmatamento por satélite, que acabou motivando o desabafo de Câmara.

Projeções para 2008
Questionado sobre as estimativas do Inpe para o desmatamento no período de agosto de 2007 a agosto de 2008, Gilberto Câmara preferiu não antecipar projeções. Mas ele adianta que os números de 2007-8 devem representar um grande aumento em relação ao período anterior. “Os indicadores apontam que o desmatamento vai ser significativamente maior que em 2006-7 por valores ainda a ser computados.”

As últimas três medições anuais haviam apontado uma queda no ritmo de derrubada. Essas medições são feitas por um sistema complementar ao Deter – o Prodes, sigla para Projeto de Estimativa do Desflorestamento Bruto da Amazônia Legal. Esse sistema tem melhor resolução que o Deter e computa apenas áreas de corte raso. 


Bernardo Esteves
Ciência Hoje On-line
18/07/2008

Confira a cobertura completa da 60 a Reunião Anual da SBPC
 
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