Literatura
Meu avô Juca
Neta de Monteiro Lobato conta quais eram os gostos e hábitos do criador do Sítio do Pica-pau Amarelo


Era uma vez um senhor muito inteligente e extrovertido que adorava escrever histórias infantis. Apaixonado pelo Brasil, ele criou vários personagens, que viviam em um lugar para lá de especial: o Sítio do Pica-pau Amarelo. Sim, estamos falando de Monteiro Lobato, escritor que, além de ter sido o autor de livros que marcaram gerações, foi uma pessoa muito importante na história do nosso país. Porém, se você conhece o criador da Emília, do Pedrinho e da Dona Benta, será que sabe também quem foi o Juca?

Juca – como Monteiro Lobato era chamado pelos seus familiares – vivia na fazenda do Buquira, localizada próximo à cidade de Taubaté, em São Paulo. Cercada pela natureza exuberante da Serra da Mantiqueira, a fazenda – que hoje se chama Monteiro Lobato – era o refúgio favorito do escritor e, sem dúvida, foi inspiração para muitas histórias. Histórias que uma menina muito levada chamada Joyce Knornbluh, a neta do escritor, adorava ler.

Joyce, hoje uma senhora muito simpática de 78 anos, nasceu em Nova York, nos Estados Unidos, mas veio para o Brasil ainda bebê, com nove meses. Aqui, passou grande parte de sua infância na fazenda do Buquira, junto com seus avós. Radiante, conta como gostava de passar o verão com Juca, que sempre estava de bom humor. “Ele não era avô de paparicar a neta, era um avô que tratava todas as crianças com grande respeito e igualdade. Nós não brincávamos muito, mas adorávamos conversar. Passeávamos por parques em Campos do Jordão, sempre conversando”, lembra.

Joyce recorda que sempre adorou ler as histórias que o avô lhe dava. “Ele não era de contar histórias, mas de fazer você se interessar por um livro que as contasse”, diz a neta de Lobato, que também gostava de ver o avô sempre lendo algum livro, desde enciclopédias até jornais, passando por clássicos da literatura e da filosofia.

Como não poderia ser diferente, os preciosos registros e lembranças de Joyce sobre Monteiro Lobato viraram livro: Juca e Joyce – Memórias da neta de Monteiro Lobato, obra escrita pela jornalista e historiadora Marcia Camargos. Fã, desde criança, das obras de Lobato, Marcia conta que quis escrever o livro com depoimentos da neta de Juca para mostrar como era o homem por trás do grande escritor. “Eu quis mostrar o lado mais afetivo de Juca, com um olhar diferente do que estamos acostumados”, explica.

Para concluir o livro, Marcia precisou fazer diversas pesquisas e entrevistas durante seis meses. “Dediquei-me a esse trabalho porque adoro Monteiro Lobato. Eu aprendi a ler com os livros dele e acho muito importante que as crianças leiam também”, conta a jornalista e historiadora, que se identificava, por sua tranqüilidade, com a personagem Narizinho, do Sítio do Pica-pau Amarelo.

No livro, descobrimos que Juca era fã de doces como o bolinho de chuva, a rapadura e o bolo de fubá. Joyce conta que seu avô adorava fotografá-la, e também levava jeito para pintar lindos quadros. Ele gostava de pescar e caçar borboletas pela fazenda, que tinha bichos como vacas, cavalos e porcos. Mas o que Juca mais gostava mesmo era ficar em seu escritório com sua máquina de escrever. Sua dedicação ao mundo da literatura era tanta, que ele criou a primeira editora de livros brasileira, a Brasiliense.

Além de ter ficado muito famoso com os personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo, Lobato também foi um jornalista atento aos acontecimentos da política e da economia do Brasil. Em suas obras, ele sempre abordava temas importantes para o nosso país. No livro O presidente negro, por exemplo, ele escreveu sobre o racismo. Por essas e outras razões, vale a pena ler suas obras incríveis, que ainda são um sucesso, mesmo décadas após terem sido escritas.


Juliana Marques
Ciência Hoje das Crianças
14/05/2008


Quer saber mais sobre Monteiro Lobato? Então, clique aqui para ler outro texto que a CHC já publicou sobre o escritor e aqui para ler uma matéria sobre o Sítio do Pica-pau Amarelo.

Confira algumas fotos de Monteiro Lobato e sua neta. Clique nas imagens para ampliá-las.

Monteiro Lobato caminha pelo centro de São Paulo em 1940. Os familiares do escritor costumavam chamá-lo de Juca. (foto: Acervo Cia da Memória).


Nesta fotografia, Joyce foi clicada pelo avô em Campos do Jordão (SP), onde os dois costumavam passear juntos (foto: Acervo BML).


Uma aquarela pintada por Monteiro Lobato (Imagem: Acervo Família Monteiro Lobato).


Joyce, de chapéu e sombrinha. Ela lembra que o avô não era de contar histórias, mas de despertar o interesse por livros que as contassem (foto: Acervo BML).


A neta de Monteiro Lobato gostava de ver o avô lendo (foto: Acervo BML).

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