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Quando crescer, vou ser... naturalista!
Conheça o profissional que registrava a natureza intocável da época das grandes navegações
Imagine-se passeando por uma enorme floresta habitada por pássaros, insetos e plantas que ninguém nunca viu – ou, se viu, não fez qualquer registro. Ao se dar conta disso, você resolve descrever o que vê em desenhos e em palavras, relatando tudo nos mínimos detalhes. Esse trabalho minucioso foi a ocupação de algumas pessoas no tempo das grandes viagens em torno do mundo, quando os últimos territórios desconhecidos foram mapeados. O registro da natureza intocável era atividade dos naturalistas, uma especialidade da ciência bem abragente e que deixou de existir. Mas como este especial da
CHC
homenageia o começo do século 19, achamos que seria interessante falar de uma profissão como esta, ainda bastante respeitada naquela época.
Para ser um bom naturalista não bastava ser craque em biologia, era preciso ser, também, filósofo da ciência e geólogo. Isso significa que, além de observar e registrar o mundo à sua volta, esse profissional também levava em conta a importância das descobertas científicas para o ser humano e pensava como esses descobrimentos se relacionavam com a natureza. Para os naturalistas, tudo o que somos e fazemos estava conectado com o resto do mundo.
A história natural nasceu na Grécia Antiga, mas ganhou maior importância quando o colonialismo europeu começou a desbravar o mundo, a partir do século 15. Os europeus estavam partindo para continentes como a África e as Américas, revolucionando a ciência e a cultura por onde passavam. No século 18, a bordo dos navios que aportavam em terras desconhecidas havia quase sempre um naturalista, além de pesquisadores nas áreas mais diversas.
Muitos naturalistas vieram ao Brasil depois que D. João autorizou expedições científicas estrangeiras pela colônia. O mais famoso deles foi o inglês Charles Darwin, que esteve em nossas terras em 1832, quando o país já havia até conquistado a sua independência.
Os historiadores da ciência dos dias de hoje são as pessoas que nos revelam esses detalhes do passado. A professora Lorelai Kury, pesquisadora e professora da Casa de Oswaldo Cruz, por exemplo, conta que os naturalistas geralmente faziam faculdade de filosofia natural ou de medicina para conhecer teoria. Mas era na prática, indo a campo, que aprendiam a lidar com os seres vivos e demais objetos da natureza. “Coletavam, descreviam e classificavam as espécies que encontravam,” define a professora e explica que os que não sabiam desenhar contavam com artistas especializados em História Natural, que retratavam as espécies com exatidão, quase como numa foto.
Era enfrentando a correnteza de rios e quilômetros de caminhadas pelas florestas que os naturalistas descobriam os seres vivos mais diferentes. Anita Correia Lima, professora de História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, diz que os naturalistas eram apaixonados pelo que faziam e seus conhecimentos cobriam inúmeras áreas da ciência, não só a biologia como muitos pensam. “Imagino que a rotina da profissão era uma dureza. O naturalista lidava com muitos assuntos, ainda coletava plantas, animais e rochas.” E a curiosidade não parava por aí. Como os naturalistas tinham a vocação de exploradores, eles acabavam se interessando por tudo, até mesmo pelas sociedades. “Muito do que se conhece hoje sobre a vida no Brasil no século 19 está nas obras dos naturalistas, que chamavam a atenção para os costumes locais, os índios, a língua e, até mesmo, a escravidão,” diz Anita.
Depois de coletar as amostras, os naturalistas tinham a importante tarefa de conservar as espécies. Lorelai explica que os animais pequenos, como insetos, eram espetados em alfinetes, enquanto outros ficavam conservados em jarros com álcool. “As plantas eram secas e prensadas em uma folha de papel para formar um herbário, uma coleção de vegetais”, explica a professora.
Observar os mais distintos ecossistemas requer muita curiosidade e sensibilidade. Os grandes naturalistas com certeza eram assim. Mas esta profissão de conhecimentos tão amplos ficou para trás. Com o passar do tempo e com o grande aumento no volume de conhecimento, as atribuições desses profissionais foram segmentadas em áreas de estudos diversas, como biologia, medicina, história, filosofia...
Juliana Marques
Instituto Ciência Hoje /RJ
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